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Programa Coleta e Reuso de OGR                                                                                                          voltar


Resíduos de óleos comestíveis: gestão ambiental na destinação, reuso como combustível e mercado de carbono.

 

Daiana de Lima Morales

Eduardo Centeno Broll Carvalho

Paulo Gaspar Müller

Paulo Soares Blessmann

Rodrigo Crespo Pont Beheregaray

  

Trata-se da proposta de um método de gestão ambiental, de forte apelo a responsabilidade sócio-ambiental, focado na cidade de Porto Alegre, para coleta de óleos comestíveis usados nos moldes do sistema já existente de coleta seletiva, para aproveitamento com a transformação destes em biodiesel, sendo então utilizados como combustível gerando benefícios econômicos, sociais e ambientais.

 

Foi realizado no período de Julho de 2006 a Março de 2007, pelos seguintes profissionais: Bióloga Daiana de Lima Morales; Geólogo Eduardo Centeno Broll Carvalho; Engenheiro Agrônomo Paulo Gaspar Müller; Engenheiro Civil Paulo Soares Blessmann e Biólogo Rodrigo Crespo Pont Beheregaray, a proposta fez parte como monografia do Trabalho de Conclusão de Curso, nível de Especialização, apresentado ao Curso MBA em Gestão Ambiental Empresarial da Fundação Getúlio Vargas, sob orientação de Susana Marcangela Quacchia Feichas.

 

Atualmente existem diversos esforços pontuais, com idéias para a destinação dos óleos usados em frituras. Porém, dada a quantidade de resíduos disponíveis, dos problemas causados pela má utilização e destinação, se fez necessário pensar e agir de forma mais ampla e consistente; para tanto foi elaborada a proposta do Programa de Coleta de Óleos e Gorduras Residuais (OGR) para transformação destes resíduos em Biodiesel, que aborda esta questão com esta nova visão, ampla, empresarial e não pontual.

 

O programa pode ser adequado a qualquer cidade ou até mesmo para empresas, indústrias, sindicatos, associações, restaurantes que produzam muitos resíduos gordurosos. Os resíduos serão transformados em Biodiesel, com baixos investimentos e retorno rápido, incluindo a possibilidade de obtenção de Créditos de Carbono do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O recolhimento dos OGR com a produção do biodiesel, trarão benefícios imediatos e diretos à qualidade de vida da população. Favorecerá a diminuição dos custos com tratamento e disposição destes resíduos, com a não necessidade de obtenção de áreas para tratamento de resíduos, assim como reduzindo custos de tratamento de água para consumo humano, reduzindo gastos com manutenção e ampliação de sistemas de saneamento urbano.

 

Deve interessar aos agentes públicos envolvidos nas áreas de saneamento, meio ambiente e gestão de resíduos urbanos, ONG’s, empresários, industriais, donos de restaurantes, proprietários de ônibus e grandes frotas, instituições financiadoras e a sociedade em geral.

 

A produção de biodiesel através de resíduos diminuirá a pressão sobre as áreas agrícolas e trará benefícios à qualidade de vida, já que o não despejo dos resíduos evitará a contaminação das redes de esgoto, o solo e mananciais de água, bem como contribuirá com a redução qualitativa e quantitativa dos níveis de poluição ambiental. É um tema já bastante evoluído em alguns países desenvolvidos como Alemanha e EUA, tem grande contribuição para os programas de Biodiesel e fontes de energia renovável que vêm sendo discutidos e implantados no Brasil, possibilita formas de inclusão social e desenvolvimento de programas de controle ambiental para áreas urbanas.

 

Figura 1: biodiesel B100 obtido experimentalmente pelos autores deste trabalho através de método de transesterificação metílico com filtragem e lavagem.

 

 

O reuso de materiais é uma das melhores formas a contribuir com a diminuição do uso impactante dos recursos naturais, que diante da quantidade de OGR produzida em Porto Alegre, demonstrou-se viável do ponto de vista técnico e econômico a sua coleta e transformação em biodiesel para posterior utilização nas frotas de ônibus urbanos.

 

Muitos estabelecimentos comerciais como restaurantes, bares, lanchonetes, pastelarias, hotéis e residências jogam o óleo comestível usado na rede de esgoto, que são produtos de difícil degradação no meio ambiente, que não se dissolvem e nem se misturam à água, formando uma camada densa que impede as trocas gasosas, se tornando um problema para rios, lagos e aqüíferos. O óleo que é mais leve do que a água, fica na superfície, criando uma barreira que dificulta a entrada de luz e a oxigenação, comprometendo assim a base da cadeia alimentar aquática. O descarte destas gorduras no esgoto também pode gerar graves problemas de higiene na rede de esgoto, causando seu entupimento, que força a infiltração no solo, contaminando o lençol freático, ou atingindo a superfície. Para retirar o óleo e desentupir os canos são empregados produtos químicos altamente tóxicos, o que acaba criando uma cadeia perniciosa.

 

Emissões de monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO2), óxidos de nitrogênio (NOx) e material particulado na combustão do biodiesel são inferiores quando comparadas as do diesel convencional. A ausência total de enxofre confere ao biodiesel uma grande vantagem, pois não há qualquer emissão de gases sulfurados normalmente detectados no escape de motores movidos a diesel.

 

A produção de biodiesel, além de gerar benefícios ao meio ambiente, pode ser convertida em vantagens econômicas. Pelo acordo estabelecido no Protocolo de Kyoto e nas diretrizes do MDL, a diminuição das emissões de gases do efeito estufa, pode ser trocada por créditos de carbono. O ganho decorrente da redução da emissão de Gases responsáveis pelo Efeito Estufa (GEE), por queimar um combustível mais limpo, pode ser estimado em cerca de 2,5 toneladas de CO2 por tonelada de biodiesel.

 

O efeito estufa é um processo que acontece quando uma parcela dos raios infravermelhos refletidos pela superfície terrestre e transformados em calor é absorvida por determinados gases presentes na atmosfera. Como conseqüência disso, a não dissipação para o espaço exterior deste excesso de calor faz com que a temperatura da Terra sofra um incremento. O efeito estufa dentro de uma determinada faixa é de vital importância pois, sem ele, a vida como a conhecemos não poderia existir. Cabe destacar que o efeito estufa, é na verdade benéfico para a vida na Terra, pois é ele que mantém as condições ideais para a manutenção da vida, com temperaturas mais amenas e adequadas. Porém, o excesso dos GEE, ao qual desencadeia um fenômeno conhecido como Aquecimento Global, que é o grande vilão. Os GEE antropogênicos, são compostos essencialmente por dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxidos de nitrogênio (NOX) e clorofluorcarbonos (CFC11 e CFC12), sendo que a produção destes últimos –CFC11 e CFC12 – é exclusivamente antropogênica.

 


Figura 2: variação das emissões de poluentes nas diferentes concentrações de biodiesel adicionados ao óleo diesel (United States Environmental Protection Agency, 2002, apud CADERNOS NAE, 2004).

 

Segundo experimentos de Rabelo (2001) e Aranda (2006), apesar de maiores ganhos ambientais nas maiores concentrações de biodiesel em mistura com óleo diesel, do ponto de vista energético para o motor o melhor rendimento encontrado oscilou na faixa de B20 a B50 (20% e 50% de biodiesel respectivamente). O melhor trade off ambiental, no entanto, é obtido para B20, sendo que com o B100 há uma redução de emissões de particulados de 47%, porém ocorre o aumento das emissões de NOx, de até 8%.

 

A coleta seletiva em Porto Alegre, atualmente, é realizada em todos os 143 bairros da capital gaúcha, estando organizada em 150 roteiros, divididos em dois turnos diários, que atendem semanalmente a cada bairro. O sistema conta também com 29 Postos de Entrega Voluntária (PEV) instalados nas capatazias do DMLU, que estão localizadas em diversas regiões da cidade e junto das unidades de triagem.

 

O OGR gerado junto a estabelecimentos comerciais e industriais, atualmente têm parte de sua produção destinada a fabricação de sabão e glicerina, aproveitada por indústrias de produtos de limpeza. Este óleo é na maioria das vezes comercializado como matéria prima, com valor pouco significativo, por vezes cobrindo custos de armazenamento e manutenção.

 

Particularmente, no caso de uma coleta de óleo de fritura usado para produção de biodiesel, entende-se que o principal condicionante quanto a sua eficiência e viabilidade logística refere-se a questões ainda de ordem cultural e educacional. Por ser uma atividade com objetivo comercial, com economicidade por escala de produção, maior é a viabilidade econômica quanto maior for volume coletado e maior a minimização do custo de deslocamentos ou da distância percorrida pelos caminhões.

 

Para solução do problema cultural e educacional da coleta de óleo de fritura usado sobre a base da coleta seletiva deverá estar associado a conscientização, entendimento e esclarecimento da população quanto a importância de se fazer um descarte ambientalmente apropriado para este tipo de resíduo.

 

De ordem sócio-econômica, a ação de coletores informais de resíduos, que atualmente são responsáveis por parte do aproveitamento e destino final, ou seja, encaminhamento para reciclagem. De fato, ocorre que existe um mercado informal estruturado às margens de um mercado ambiental e economicamente muito importante, preocupa que este resíduo possivelmente viria a ser reutilizado e consumido, principalmente junto a parcela da população menos favorecida, representando um risco a saúde pública, em função de problemas de saúde ocasionados pela ingestão de gorduras oxidadas.

 

Para funcionamento do projeto, sugere-se em um primeiro momento, que todos os estabelecimentos comerciais da área da alimentação (restaurantes, bares, lanchonetes, hotéis, etc.), todas as indústrias ou qualquer outro tipo de empreendimento que produzam resíduos gordurosos, sejam estes resíduos de sua atividade produtiva ou de suas cozinhas,  que os seu OGR sejam recolhidos de maneira similar ao que já acontece na coleta seletiva. Além dos estabelecimentos comerciais obrigados a entregar seu OGR, entidades e órgãos que possuam cozinha e produção desta matéria prima, como quartéis, igrejas, escolas ou indústrias alimentícias poderão recolher e armazenar voluntariamente para o programa.

 

O OGR recolhido será destinado para usina de reuso, onde será usado o processo de transesterificação, convertendo os óleos usados em biodiesel e glicerol. A usina deverá ter condições de produzir o biodiesel com qualidade mínima imposta pela ANP, em suas propriedades químicas, físicas e de purificação. Assim, o biodiesel terá destino, inicialmente, misturado ao óleo diesel convencional, na proporção B20, para que este deste seja direcionado à frota de ônibus metropolitanos de Porto Alegre, o que indubitavelmente traz viabilidade econômica, ganhos ambientais e sociais.

 

Este sistema poderia ser operado tanto por iniciativa pública como privada, ou através das Parcerias Público-Privadas (PPP), sendo incentivado por subsídios tributários e incentivos comerciais como o “Selo Verde” contando com o apoio dos produtores dos OGR inclusive e com Mercado de Carbono.

 

Quanto à logística a ser implantada para execução da coleta, será necessária ainda a realização de um levantamento ou estudo mais específico para determinação dos pontos de concentração dos estabelecimentos geradores em função do número de unidades e volume produzido de OGR/tempo, condições de acesso e tráfego, distância da unidade de produção de biodiesel e forma de armazenamento. Estes dados, que ainda não são disponíveis e cadastrados, seriam determinantes para definição de um estudo de roteiro, freqüência e dimensionamento da estrutura, logística, equipamentos e veículos necessários. Pelas características do tipo de resíduo a ser coletado (OGR) e volumes gerados, com uma estimativa de aproximadamente 2.000 toneladas/ano, conforme dados apresentados neste estudo, a coleta poderia ser realizada por unidades móveis compostas por tanque de armazenamento, sistema de bombeamento e compartimento de transporte de bombonas, tipo caminhão comboio. Preliminarmente, com base nos dados hoje disponíveis, considerando um volume de aproximadamente 2.000 toneladas/ano a custo de R$145,43/tonelada de resíduo coletado, tem-se custo total de R$290.860/ano.

 

Em médio prazo, conforme desenvolvimento e ajuste do sistema de coleta de OGR junto aos estabelecimentos comerciais e industriais, evolução dos programas de educação ambiental e conscientização, assim como a percepção dos seus benefícios ambientais, poderia ocorrer a ampliação da estrutura e incremento no sistema englobando-se, paulatinamente, os PEV sobre a base do sistema de coleta seletiva já implantado em Porto Alegre. Os pontos de coleta inicialmente deveriam englobar os mesmos PEV do sistema de coleta seletiva do município, sendo consecutivamente adensados com instalação de pequenas unidades junto a supermercados, feiras e estabelecimentos comerciais de produtos alimentícios de grande concentração pública.

 

Posteriormente, a longo prazo, considerando a positiva incorporação dos benefícios ambientais e sociais, assim como os resultados obtidos no sistema de curto e médio prazo, poder-se-ia finalmente estender o programa englobando a coleta residencial, sobre a base do sistema do programa de gerenciamento de resíduos sólidos, com foco na coleta seletiva.

 

Do ponto de vista ético muito têm-se debatido, especialmente sobre o uso de áreas agriculturáveis para produção de combustíveis em substituição da produção de alimentos; neste caso estaríamos utilizando um resíduo da alimentação para produção de combustível.

 

Baseados em dados da FAO (Food and Agriculture Organization) que estima o potencial per capita de OGR coletáveis, chegamos a um potencial para Porto Alegre de 2.861.583,09 litros/ano (2.861,58m3/ano) de OGR. Considerando estes dados, temos um potencial de produção de 2.297.135,83 litros/ano (2.297,13m3/ano) de biodiesel, o que geraria um faturamento de R$ 4.364.558,08/ano com biodiesel e de R$ 191.000,00/ano com glicerol.

 

Com esta produção estimada de biodiesel à base de OGR teríamos 2.039,85 ton/biodiesel ao valor de R$ 40,00/ton (€ 16,00/ton) de crédito de carbono, assim poderia ser gerada uma receita de R$ 203.985,15/ano em Créditos de Carbono.

 

Para ter-se uma idéia do que representa a coleta dos OGR e transformação em biodiesel, a cidade de Porto Alegre, segundo valores obtidos no banco de dados da Fundação de Economia e Estatística (FEE, 2005), consumiu no ano de 2005 a quantia de 168.190.296 litros de óleo diesel. Desta forma a demanda para atender ao B2, que será obrigatório já em 2008, é necessária a substituição de 3.363.805 litros de óleo diesel por biodiesel, com isso verifica-se que a produção com base neste resíduo conseguiria atender 68% da demanda por biodiesel, na capital gaúcha, considerando-se a proporção B2.

 

Porto Alegre, julho de 2007.                                                                                                                                                                   Voltar ao Topo

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